Gente com alma





Há pessoas que não imaginam a importância que têm para os outros e a diferença que fazem na vida de muitos. Podem até não ser amigos chegados, mas têm algo que nos toca e, por isso, nutrimos por elas consideração, respeito ou até um certo carinho.

Vou falar-vos concretamente de uma pessoa que partiu inesperadamente, o que provocou perplexidade e comoção. Mas não só a mim.

Os meus filhos mais velhos, durante os anos da primeira infância, foram seus fãs. 
Todos os dias recebiam um fraterno aperto de mão do Toino Zé, como lhe chamavam.

O António Zé trabalhava nos serviços municipais de higiene e limpeza. Recolhia o lixo, porta a porta, e era nesta rotina que os meus rapazes se cruzavam com ele todos os dias. E todos esses dias, falava-lhes em alarde, à sua  maneira. Retirava as luvas e estendia-lhes a mão, sacando-lhes de imediato um sorriso e um encantamento, daqueles mesmo genuínos, que só as crianças sabem ter.

Durante anos, em casa, os meus rapazes mais velhos subiam ao primeiro degrau da escada e agarravam-se ao corrimão, numa espécie de imitação ao que todas as manhãs viam o Toino Zé fazer - depois de despejar os baldes, subia novamente ao degrau do camião proferindo uma qualquer interjeição, em sinal de prontidão para seguir viagem. Até isto eles replicavam.

Quando perguntávamos ao Vasco o que queria ser quando fosse grande, a resposta era imediata: "Quero ser homem do lixo!" 
O Tomás, à semelhança do irmão mais velho, dizia o mesmo. Tanto assim era que no decorrer das simulações de sobe e desce o degrau das escadas chegavam a zangar-se, porque ambos queriam ser o Toino Zé. Depois lá chegavam a acordo e o mais novo optava por ser o companheiro do Toino Zé. 

Anos mais tarde, o António Zé soube da admiração que os meus rapazes sentiam por ele, resultado da forma como diariamente eram tratados.  Ficou comovido, mas o seu peculiar feitio fê-lo disfarçar, que não era pessoa de mariquices.

Desde então, não houve um dia em que me visse que não perguntasse - Então eles?
"Eles" eram os meus rapazes, plural onde já se englobava o terceiro que, apesar de mais novo, também ganhou muitas vezes o "passou-bem" do Toino Zé. E também ele ficava radiante quando ouvia a história do mano mais velho que queria ser homem do lixo. 

Esta não é uma história com personagens da ficção. Antes peripécias da vida que ficam na nossa vida.

Sem querer, o António Zé desmistificou-lhes que não importa a profissão. Importa o caráter e a forma como tratamos os outros.

Não temos fotos que comprovem estes momentos, mas não é preciso. Ficam-nos naquilo que somos. 

O António Zé conseguiu ser um herói para os meus rapazes, sem saber que o era.

O aperto de mão manteve-se até à ultima vez que estiveram com o Toino Zé. Mas foi o último. 

O António Zé já não está entre nós. 

O lixo continuará a ser recolhido por outros homens tão dignos quanto o António Zé e os meus rapazes já não são crianças.

Até sempre, Toino Zé. 

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